mulheres no campo: como elas têm ganhado espaço e a importância do seu trabalho

Mulheres no campo: como elas têm ganhado espaço e a importância do seu trabalho

24 / jan / 2020 | Deixe seu comentário

O agronegócio também é gerenciado por mulheres! Desde sempre, a presença da mulher no campo é importante, mas apenas mais recentemente que o devido reconhecimento está sendo dado a elas. É mais uma das mudanças perceptíveis no setor da agricultura, sempre em evolução.

Para mostrar como as mulheres têm ganhado espaço no campo, preparamos este artigo detalhando o que elas fazem, qual está sendo o caminho para o reconhecimento e as tendências para essas profissionais adiante. Continue lendo!

O crescimento da participação das mulheres no campo

A conquista feminina por direitos é uma crescente mundial que atravessa todos os setores da sociedade. Portanto, não poderia ser nem um pouco diferente com o setor agrícola. Há anos, a tendência que pode ser observada são as mulheres deixando de ser apenas as filhas ou esposas dos proprietários de terra para então conquistarem cargos de produtoras, agrônomas, engenheiras, técnicas e outras profissões relacionadas ao campo.

Na metade de 2017, a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) realizou uma pesquisa para traçar um perfil dessas mulheres, entre produtoras e outras ocupações. Nomeada como “Todas as Mulheres do Agronegócio”, a pesquisa trouxe dados importantes para que se começasse a entender um pouco mais da atuação dessa parcela no setor.

A maioria delas – quase metade, sendo 49,5% da amostra – atuava em minifúndios, seguida por pouco mais de 26% presentes em pequenas propriedades. Quanto maior o tamanho da área de cultivo, menor é a presença feminina. Talvez por tradicionalmente o perfil dos donos de terras brasileiros ser majoritariamente masculino, sendo um nicho mais difícil de adentrar. Ainda assim, quase 11% delas atuavam em locais considerados grandes propriedades.

mulheres no campo

Fonte: Instituto de Pesquisa Sorocabano (IPESO), para a ABAG, em 2017.

No final de 2016, a OXFAM, uma confederação internacional que luta contra a pobreza e a desigualdade em mais de 90 países, divulgou o relatório “Terra, Poder e Desigualdade na América Latina”. Ele comparava o cenário das propriedades rurais em 15 países, dando destaque ao Brasil.

Segundo essa pesquisa, na maior parte das vezes, as mulheres não são reconhecidas como as donas das propriedades. Apesar de que, na época, 12% das terras do país já estavam sob o comando de mulheres, somente 5% dessas compreendiam zonas rurais, confirmando a dominação masculina no setor.

Com o alarmante dado da ABAG de que 74,2% das trabalhadoras já haviam sofrido algum tipo de preconceito de gênero, o receio era de que isso inibisse a ampliação da participação feminina no campo. Felizmente, não foi o que aconteceu: hoje, as mulheres estão presentes em todos as atividades da fazenda, seja na operação de máquinas agrícolas ou na administração do negócio.

E as informações coletadas também foram pertinentes para indicar e servir de comprovação de que havia uma expansão da presença feminina por diversas áreas.

A pesquisa apontou que a maioria esmagadora atuava dentro da fazenda, sendo essa parcela composta por 73% das trabalhadoras. Entretanto, elas também foram encontradas atuando em cooperativas (3,7%), no setor de insumos agrícolas (3,4%), e desempenhando funções relativas ao fornecimento de serviços e produtos, comércio, governo e outras instâncias ligadas a atividades da agroindústria (9,3%).

A ABMRA (Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio) também realiza anualmente a pesquisa “Hábitos do Produtor Rural”. De acordo com a edição de 2017, 31% dos cargos de administração do empreendimento eram ocupados por mulheres. Apesar de ainda estarem em desvantagem em relação aos homens, o mais impressionante foi o crescimento dos números: apenas quatro anos antes, em 2013, a ocupação era de só 10%.

E isso porque os cargos de administração compõem somente um dos setores dentro do processo produtivo agrícola que conta com a presença das mulheres. A seguir, vejamos um pouco mais sobre essa pluralidade e a importância das mulheres na agricultura.

Representatividade no campo: o reconhecimento do trabalho das mulheres na agricultura

As comunidades locais são as que contam com a maior parte da participação feminina em seu desenvolvimento. Ainda assim, a sociedade não reconhece as mulheres que trabalham ajudando a construir e a manter esse cenário. E, afinal, por que as mulheres no campo não têm seu trabalho reconhecido?

Parte disso tem origem na falta de dados mais detalhados e atualizados sobre o perfil e as demandas desse grupo de trabalhadoras. Com esse déficit de informações coletadas, os agentes responsáveis por elaborar políticas públicas que atendam essa parcela tem maior dificuldade para tal, principalmente para propor mudanças que realmente sejam efetivas, uma vez em que estão no escuro sobre o verdadeiro panorama.

Para combater essa insuficiência, a Secretaria de Agricultura Familiar e Cooperativismo, coordenada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) – o mesmo que comanda a Embrapa –, desenvolve campanhas em prol da eliminação da disparidade em diversas frontes.

Em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), foi lançada a campanha “#MulheresRurais, Mulheres com Direitos”. Em 2019, o tema era voltado para a divulgação, pensando em dar visibilidade a essas mulheres, com o lema “Pensar em igualdade, construir com inteligência, inovar para mudar”.

Até dezembro, atividades foram realizadas priorizando o papel das mulheres rurais, indígenas e afrodescendentes no processo produtivo sustentável de alimentos saudáveis e nutritivos não apenas no Brasil, mas somando também os outros países da América Latina e o Caribe. Campanhas assim são fundamentais para exaltar a representatividade no campo, indo além da afirmativa de que há mulheres no ambiente rural e detalhando quem são elas e como atuam.

mulheres no campo

Já em parceria com o IBGE, o Mapa firmou um acordo para criar um banco de dados e aprimorar o levantamento de informações relacionadas a agropecuária com uma perspectiva de gênero. Esse é um passo muito importante para que o país possa avançar na coleta de dados, principalmente com uma diversidade tão presente no dia-a-dia, mas que não é documentada.

Com essa medida aplicada, foram disponibilizadas informações mais recentes sobre as mulheres na agricultura – e também sem depender da encomenda de pesquisas particulares, como os casos anteriormente citados da ABAG e da OXFAM. De acordo com o último Censo Agropecuário do IBGE, os números já aumentaram, apontando que quase 20% dos empreendimentos rurais do país são dirigidos por mulheres.

É um aumento significativo e que deve ser bem recebido. Ainda assim, como aponta a Secretaria, quando comparado com quanto dos alimentos que é produzido pelas mulheres rurais, há uma disparidade. Sabe-se que entre 70% e 80% dos produtos para autoconsumo são cultivados por elas, logo, a quantidade de empreendimentos gerenciados por trabalhadoras deve continuar aumentando (e ser incentivada!).

E esses números sobre mulheres na direção podem crescer oficialmente ainda mais com uma pequena medida: muitas mulheres que são produtoras e responsáveis pela propriedade em que trabalham não possuem o registro do terreno. Esses documentos costumam estar em nome de algum homem da família, o que altera os dados coletados pelas instituições.

Depois que essa barreira da documentação for ultrapassada com o registro de modo apropriado, existem, é claro, outras a serem ser superadas para a ampliação substancial da participação feminina. Um exemplo de obstáculo é a maior parte das mulheres proprietárias comandar áreas menores que 5 hectares. Numa perspsectiva comparativa ampla, isso faz com que o alcance de suas produções seja limitado.

Por outro lado, é inegável o quão fundamental é a atuação das mulheres no campo. Mesmo com todos os percalços, o papel que elas têm desempenhado para a safra agrícola do país é de suma importância e contribui para o fortalecimento da economia brasileira.

As trabalhadoras rurais e o avanço tecnológico

Um dos fatores que contribui para perpetuar a noção de que mulheres não estão presentes no campo é a ideia de que o trabalho realizado no setor se baseia simplesmente na força braçal. Mesmo nos primórdios da agricultura, sabe-se que técnicas e ferramentas já eram aplicadas para tornar possível o cumprimento das tarefas com menos dificuldade.

Hoje, com o advento da tecnologia e sua aplicação cada vez mais ampla no agronegócio – uma tendência que não aparenta desacelerar –, a execução das tarefas continua sendo simplificada. As mulheres conseguem se apoiar nesse desenvolvimento científico e o atual período histórico é o mais favorável até então para isso.

O engajamento das mulheres no campo junto da ampliação do uso da tecnologia da informação (com o advento da agricultura de precisão) é uma combinação poderosa. A mecanização das atividades rurais aumentou as oportunidades de trabalho. E isso porque o maquinário demanda pessoas qualificadas que saibam operá-lo – mesmo que seja somente para configurar seu modo de piloto automático.

E, nesse caso, as mulheres possuem uma vantagem acadêmica: em comparação com os homens, elas costumam apresentar índices de escolaridade mais altos. Segundo a pesquisa realizada pela ABMRA citada anteriormente, cerca de 1 em cada 4 mulheres tem formação superior, contra 1 em cada 5 homens.

Com o trabalho no campo se tornando cada vez mais estratégico e tendo um apelo maior ao planejamento, a busca dos gestores rurais se torna exclusivamente voltada para profissionais de alta competência. Nesse contexto, as mulheres provam que são mão-de-obra qualificada: com 60% das entrevistadas pela ABAG afirmando ter escolaridade em nível superior, elas são as mais interessadas por aperfeiçoamento.

O futuro das mulheres no campo

Como vimos e inúmeras pesquisas comprovaram, também existem mulheres comandando o agronegócio! Com a melhora na coleta de informações e na catalogação de dados sobre a participação das mulheres no campo, já é possível acompanhar o crescente fortalecimento da representatividade feminina rural.

As trabalhadoras do campo provaram que buscam por conhecimento e estão abertas à inovação, sempre mantendo como objetivo a melhoria dos resultados do negócio, estejam elas ocupando os cargos de gestão de sua categoria ou não.

Há muitos anos, em alguns casos, as mulheres assumiam posições nas propriedades agrícolas praticamente por obrigação, tendo que suceder parentes. Hoje, o cenário das mulheres na agricultura é outro, muito mais permissivo e atrativo. Com um interesse genuíno pela ocupação, as novas gerações fomentam o desenvolvimento do setor.

mulheres no campo

Muitas saíam (e ainda saem) da zona rural em busca de melhorias acadêmicas e capacitação, retornando depois da qualificação para agregar conhecimento de ponta e maior rentabilidade ao negócio. O benefício da modernidade é a possibilidade do estudo à distância, com muito material disponível na internet.

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